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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Não é brincadeira: como o “bullying corporativo” destrói profissionais e empresas

Problema impacta produtividade, prejudica resultados e arrasa carreiras promissoras

Marcela Agra, www.administradores.com,
Uma das consequências do bullying é a depressão
A palavra bullying ganhou notoriedade no Brasil conforme mais e mais casos extremos e consequentes dessa prática encontraram lugar no cotidiano do brasileiro. Quer pontuados na mídia ou comentados em rodas de amigos, os casos não constituem mais  apenas um cenário tipicamente norte-americano no imaginário da sociedade, mas fazem parte de realidades ao redor do mundo, em vários níveis e esferas. E engana-se quem pensa que se trata de uma prática restrita ao universo jovem, como escolas, praças, condomínios e clubes.
Práticas de constrangimento e menosprezo para com colegas passaram a ser identificadas também no âmbito de trabalho como bullying. André Freire, presidente da Odgers Berndtson do Brasil, companhia especializada no recrutamento de executivos, cita a constante busca por produtividade e situação econômica mundial deprimida como fatores que tornam o ambiente de trabalho mais "nervoso", conjuntura que pode criar um clima de cobranças doentias. "A cobrança, quando mal administrada e feita por executivos já estressados e com baixo suporte emocional, pode acarretar bullying profissional", afirma.
Comportamentos que antes não levavam esse nome ou não se aglutinavam em um termo que os estabelecesse como um problema, passaram a ser considerados como tal em nível corporativo. Consequentemente, o bullying tornou-se objeto de estudos. A psicóloga Gisele Meter, com vasta experiência na área de Recursos Humanos, se dedica a pesquisar o tema como fenômeno social, com foco em identificar como ele se insere no ambiente profissional brasileiro. Ela define o bullying como "uma afirmação de poder através de agressão, feita de forma intencional e repetitiva, causando dor e angústia à vítima, que normalmente acaba tendo sua autoestima rebaixada e se sentindo cada vez mais fragilizada para reagir aos ataques".
No trabalho, essa prática frequentemente está relacionada ao abuso ou mau uso de autoridade, quando chefes e pessoas que ocupam posições de poder se sentem no direito de agredir seus subalternos. "O dono da empresa chamava as secretárias de jumento do Ceará, macaco e, inclusive, colocou uma campainha dentro da sala para espantar as funcionárias quando estavam sorrindo ou conversando", conta E.S., secretária.
Comportamentos como esse, que intimidam, agridem e humilham um funcionário, normalmente na frente de outras pessoas, geram sentimentos de impotência no alvo. A experiência de R.O., administrador na área de Varejo, confirma o conceito. "Quando a empresa falava muito em 'profissionalização', mas não dava base alguma aos gestores e heads, [o bullying] acontecia diariamente. Colaboradores sendo chamados de burros, sendo ameaçados de perder seus empregos, preconceitos 'indiretos', intimidações, apelidos pejorativos etc...", revela.

A desestabilização

À definição da psicóloga Gisele Meter, a médica do trabalho Margarida Maria Silva Barreto acrescenta a questão da desestabilização da relação da vítima com o ambiente de trabalho e com a organização, o que pode resultar em desistência do emprego. "Na última empresa em que atuei, sofria pressão e humilhações por ter crises alérgicas. [A chefe] falava que eu era uma doente, bem como também me dizia: 'você tem problemas psicológicos, precisa se tratar'. Falava para todos da equipe. E, por esse motivo, optei por me retirar da empresa", conta J.R.C., assistente técnica em telecomunicações.
A declaração de J.R.C. é um exemplo de quanto "a exposição de trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções", como define Margarida Barreto, pode afetar a vida da vítima desta prática, causando até a perda da fonte de seu sustento financeiro.

Bullying x agressão x assédio moral

Para a legislação brasileira, não existe ainda a diferenciação formal entre bullying, agressão e assédio moral, sendo todas essas práticas abarcadas pelo último termo, conforme a cartilha sobre assédio moral e sexual produzida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Está em trâmite, porém, projeto de lei (PL 1011/2011) que visa incluir o bullying como forma específica no Código Penal Brasileiro, tipificando o comportamento como crime contra a honra.
Na prática, pesquisadores e profissionais de RH costumam diferenciar o bullying do assédio moral e da agressão, para fins de entender cada fenômeno e criar ferramentas para melhor lidar com eles. O assédio moral geralmente se dá em relação vertical, em que há desigualdade de poder, e apenas um ato já o configura. A agressão também se constitui em um ato isolado, mas é considerada como tal tanto horizontal como verticalmente. O bullying pode acontecer em todos os níveis e seu grande diferencial é ser definido por ataques repetitivos, que se sucedem com certa constância durante um longo período de tempo.
O bullying é um padrão de comportamento marcado pela reincidência. Um ato que constitua assédio moral ou agressão não é necessariamente bullying. Por isso é que nem toda cobrança mais dura por parte de um chefe pode ser definida dessa forma. "É muito importante diferenciar bullying de cobrança firme de resultados. Esse fenômeno somente se caracteriza quando a cobrança é complementada pela falta de respeito ou a desmoralização do profissional frente a seus colegas, de forma frequente", explica André Freire, presidente da Odgers Berndtson do Brasil.

Quem faz e quem sofre

O que levou a psicóloga Gisele Meter a se aprofundar no tema foi o fato de ter se deparado com uma pesquisa realizada pelo Instituto de Bullying no Trabalho, organização norte-americana que estuda o bullying profissional. Os dados mostravam um crescimento da prática entre profissionais mulheres; segundo o estudo, são 50,2% delas que fazem esse tipo de agressão no meio profissional, contra 44,7% dos homens. Essas informações despertaram na psicóloga a curiosidade com relação à situação no Brasil.
Seus estudos, que consideram especialmente a questão de gênero no bullying profissional, levaram-lhe à conclusão de que esse tipo de comportamento em solo brasileiro é equilibrado entre os gêneros. Gisele Meter entrevistou 306 pessoas de ambos os sexos e diferentes cargos e empresas, em 19 estados, com idades entre 18 e 61 anos. Ela constatou que não existem diferenças significativas entre os homens e mulheres na prática do bullying, de acordo com as respostas obtidas.
Em sua experiência, porém, Gisele afirma ver mais mulheres praticando bullying velado, através de fofoca, exclusão e maledicências, e mais homens realizando agressões abertas, por meio de xingamentos e apelidos pejorativos. "Este é um viés pessoal que já observei dentro da minha empresa, que conta com aproximadamente 300 colaboradores, e que é diferente do apontado na pesquisa", afirma, deixando claro que essa é a realidade do seu local de trabalho e não uma regra.
O perfil de quem pratica o bullying, portanto, não é exatamente padronizado. Os comportamentos abusivos é que apresentam traços em comum. Apesar de acontecer normalmente em nível vertical, quando relações de comando ultrapassam os limites do saudável, o bullying horizontal é surpreendentemente comum.
Pode ser mais difícil percebê-lo pois geralmente em relações horizontais os abusos se disfarçam como "brincadeiras" e comportamentos passivo-agressivos, como no caso de A.T., que atua no setor financeiro de uma empresa. "Já falaram que eu preciso de um spa. Ontem me compararam a uma atriz muito feia. Riram de mim. Debocharam de mim. Fui embora chorando e ainda estou muito mal", disse.
Os números comprovam a gravidade do problema: pesquisa feita pelo já citado Instituto de Bullying no Trabalho dos Estados Unidos, divulgada em 2014, mostrou que 72% dos empregados norte-americanos estão sendo ou já foram vítimas, ou conhecem casos de bullying profissional. Dentre esses, 28% afirmam que essa prática partiu de colegas e não de chefes.
A história de P.L., assistente contábil, exemplifica como o bullying horizontal é comum no ambiente corporativo. "Eu sempre fui boa funcionária, e em uma certa empresa estava me destacando muito, o que causou inveja e incômodo nos demais, que se juntavam e faziam fofocas para o diretor, socavam meu braço quando passavam por mim e fingiam que foi sem querer, davam beijo no pescoço e riam", conta. 
Eduardo Carmello, diretor da Entheusiasmos, empresa especializada em gestão de talentos, reforça esse ponto. “Esse é um fenômeno ainda invisível nas empresas, quando as pessoas sofrem assédio por parte de colegas. Por incrível que pareça, esse tipo de bullying tem geralmente a ver com o fato de a vítima ser um bom profissional, ter ótimo desempenho e começar a incomodar os colegas, que se sentem ameaçados”, explica.
Ainda segundo a pesquisa do Instituto de Bullying no Trabalho, 37% das pessoas que mais sofrem com a prática do bullying são consideradas gentis e dotadas de compaixão, enquanto 22% conseguem driblar o bullying ou de alguma forma lidar com ele. Pessoas agressivas e abusivas são normalmente os agressores.

Consequências: o ciclo sem fim

A prática do bullying obviamente afeta grandemente a vida da vítima, não só em aspectos psicológicos, mas também físicos, em casos mais graves. Os níveis de estresse podem afetar padrões de alimentação e de sono, contribuindo para um estado de depressão e pessimismo. "Entrei em depressão e saí dessa empresa com muito medo. Hoje estou bem melhor, sei lidar melhor, mas cheguei a ter transtorno delirante com as brincadeiras, fora a depressão e síndrome do pânico", compartilha P.L., assistente contábil.
Essas consequências são prejudiciais para a empresa também. A pesquisa realizada por Gisele Meter revelou a existência de um ciclo nocivo para as organizações, advindo do bullying. Por ser muitas vezes um conjunto de comportamentos difícil de ser identificado de fato como um problema, o bullying pode passar despercebido e só ser notado quando já está ocorrendo em nível avançado.
"O ciclo do bullying se inicia com a raiva, passando para o sentimento de humilhação, vergonha, impotência, baixa autoestima e tristeza. E o que se percebe é que, já no segundo estágio, impacta a produtividade do indivíduo, e a partir do penúltimo estágio pode envolver estresse, afastamento do emprego e, em último grau, depressão ou até mesmo fobia social", afirma Gisele, com base em sua pesquisa. As consequências individuais, portanto, ultrapassam os limites do pessoal e prejudicam o ambiente ao redor do funcionário.
André Freire reforça a fala de Gisele, apontando a diminuição da produtividade, clima organizacional negativo, medo e falta de transparência de funcionários que temem repreensões como desdobramentos do bullying que são extremamente prejudiciais para as organizações. A perda de um colaborador talentoso, o descontrole da harmonia da empresa, a alta rotatividade de funcionários, todas são consequências de um ambiente em que faltam confiança e respeito.
Recontratar funcionários que deixam a empresa por serem alvos do bullying, gastar tempo resolvendo conflitos relacionados à prática e até potenciais processos trabalhistas são elementos que podem ser evitados com a adoção de uma política preventiva. O objetivo deve ser evitar que os funcionários sejam impedidos de contribuir com o melhor desempenho possível para a organização por causa de um clima de medo e da quebra de confiança.

Existe luz no fim do túnel

Somado ao fato de que o bullying profissional pode ser de difícil identificação há a dificuldade de falar abertamente sobre o tema. Essa situação pede mudança. Pessoas que estão em posição de poder nas empresas precisam tratá-lo como um problema relevante a fim de que ele deixe de fato de ser um problema. Um dado curioso da pesquisa realizada por Gisele Meter é que apesar de as pessoas saberem quais são os impactos do bullying, 32% dos respondentes afirmaram não saber dizer se já praticaram ou não bullying no ambiente de trabalho. Essa informação reforça a importância da discussão aberta sobre o tema no mundo corporativo.
O estudo mostrou ainda que 58% dos participantes já sofreram bullying profissional, e 89% deles acreditam na importância de adotar políticas claras contra esta prática. Apenas 5% afirmam trabalhar em empresas nas quais há políticas anti-bullying por escrito. A instauração de uma atitude clara em relação ao assunto é, portanto, urgente. No caso do bullying, a máxima "antes prevenir do que remediar" cabe perfeitamente.
"O ideal é que o primeiro passo a ser dado seja a instauração de politicas claras de anti bullying, além de muita conversa sobre o tema. Outra coisa que percebo é que quando falamos sobre isso, as pessoas acham que é apenas uma brincadeira e que a empresa estaria tolhendo o direito dos trabalhadores de se expressar e interagir", lamenta Gisele Meter. Por esse motivo é que a psicóloga afirma a necessidade de explicar claramente, através de palestras, cartilhas e discussões em grupo, a diferença entre brincadeiras saudáveis e bullying. No segundo caso, a diversão não é compartilhada, mas alcançada através do sofrimento de outras pessoas.
André Freire aponta como alternativas serviços externos de suporte, como por exemplo ouvidorias, para que os funcionários possam denunciar abusos sem medo de represália. Além disso, o envolvimento do RH com treinamentos de liderança é importante para esclarecer a diferença entre cobrança de resultados e assédio moral. Acima de tudo, é preciso pensar e lidar com o bullying de forma séria. "É preciso saber que bullying é um tipo de violência e deve ser tratado como tal", conclui Gisele Meter.
fonte:
http://www.administradores.com.br/noticias/carreira/nao-e-brincadeira-como-o-bullying-corporativo-destroi-profissionais-e-empresas/94988/

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Livro sobre imperatriz do Brasil é lançado na Itália


A princesa napolitana Teresa Cristina de Bourbon, que foi casada com Dom Pedro II, é tema de um livro lançado em Nápoles


NÁPOLES (ANSA)  - A princesa napolitana Teresa Cristina de Bourbon (1822-1889), que foi casada com o imperador Dom Pedro II, foi lembrada na Academia das Belas Artes de Nápoles em ocasião do lançamento de um livro que contou com a participação de estudiosos italianos e brasileiros.
"Uma imperatriz napolitana nos trópicos" (na tradução literal do italiano), de Aniello Angelo Avella, narra os 50 anos que a princesa passou no Brasil. A história foi reconstruída a partir de documentos e correspondências particulares.
Regina Weissmann, chefe de Gabinete da Reitoria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destacou que a imperatriz inaugurou, "com sua forte personalidade e grande sensibilidade", as relações entre Itália e Brasil.
"Nas décadas sucessivas a 1843, data de sua chegada, milhões de imigrantes se mudaram para o nosso país, onde hoje os descendentes de italianos são estimados em 30 milhões", disse.
Mauricio Gomes Candeloro, chefe de Gabinete da Embaixada do Brasil em Roma, destacou que, "com o casamento de Teresa Cristina e Dom Pedro II, a família imperial brasileira se entrelaçou com os Bourbon, das Duas Sicílias, e com Nápoles" e que, "quatro anos mais tarde, em 1847, começou a emigração dos outros países europeus ao Brasil".
Culta e apaixonada por arqueologia, Maria Teresa Cristina encomendava de Pompeia e Herculano vários objetos da vida diária. "Graças a ela, hoje o Brasil possui a maior coleção de arqueologia clássica da América Latina, com mais de 700 peças", comentou o autor do livro, que leciona história da cultura de países de língua portuguesa na Universidade de Roma Tor Vergata como professor visitante da UERJ.
http://www.oreporter.com/Livro-sobre-imperatriz-do-Brasil-e-lancado-na-Italia,7974298970.htm

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Fernando Morais dedica prêmio aos 5 antiterroristas cubanos

O escritor brasileiro Fernando Morais, autor do livro Os últimos soldados da Guerra Fria, dedicou no sábado (14), o Prêmio Brasília de Literatura na categoria de “Reportagem” para os Cinco cubanos, presos injustamente nos Estados Unidos e personagens centrais do livro.

“Dedico este prêmio aos cinco cubanos presos nos EUA, que são os personagens do livro”, disse Morais ao receber o prêmio na cerimônia de abertura da 1ª Bienal Brasil de Livros e da Leitura, em Brasília, na Esplanada dos Ministérios.

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Cinco Patriotas: Campanha Obama Give me Five começa hoje nos EUA

Em declarações à Prensa Latina, Morais observou que este prêmio é uma honra especial, uma vez que recebe com o trabalho que narra o trabalho de Antônio Guerrero, Fernando Gonzalez, Ramon Labañino, René Gonzalez e Gerardo Hernandez, nos Estados Unidos, que consiste de alerta de Cuba a atos terroristas pelos grupos extremistas cubanos, com base na Flórida.

Ele também ressaltou que o reconhecimento irá permitir maior difusão no Brasil da injustiça cometida contra os Cinco, como são conhecidos em todo o mundo, e a necessidade de aumentar a pressão para sua liberação e para permitir que voltem para Cuba.

Os últimos soldados da Guerra Fria é uma denuncia contra o processo judicial imposto contra o terrorismo, que foram presos injustamente faz quase 14 anos em os EUA por combater o terrorismo. Lançado em agosto de 2011, o livro de Morais passou várias semanas entre os mais vendidos na América do Sul, permitiu uma pequena quebra silêncio da mídia sobre esta nação e permitiu que os brasileiros tenham melhor conhecimento do caso.

Adriana Perez, esposa de Gerardo Hernández, e Aili Labañino, filha mais velha de Ramon, que estão em Brasília, e o embaixador de Cuba no Brasil, Carlos Zamora, felicitaram o escritor brasileiro pelo prêmio e pelo seu gesto em prol dos Cinco lutadores contra o terrorismo.

Fonte: Prensa Latina
Tradução: Síntese Cubana
http://www.vermelho.org.br/ac/noticia.php?id_secao=7&id_noticia=180928

Memória de internet

Cada vez mais numerosa, lista de acervos digitalizados de cientistas e personalidades conta agora com coleção de Nelson Mandela. A tendência, que pode ajudar a preservar a história da ciência e das lutas sociais, ainda tem poucas e isoladas iniciativas brasileiras.
Memória de internet
Diários, bilhetes, cadernos, cartas, fotos: acervos ‘on-line’ reúnem enorme quantidade de documentos de grandes cientistas e personalidades e permitem conhecer o passado e pensar o futuro da ciência e das lutas sociais. (montagem: Marcelo Garcia)
O lançamento recente de um acervo on-line de documentos e imagens do líder político sul-africano Nelson Mandela é mais um passo de um movimento que tem reforçado o papel da internet como receptáculo moderno da memória da humanidade. Mandela entra para a lista de grandes cientistas e personalidades que passam a ter um vasto material relacionado à sua vida preservado e acessível na rede. No Brasil, iniciativas desse tipo, verdadeiros convites a conhecer o passado e grandes oportunidades de pensar sobre o futuro, ainda são isoladas e esbarram na falta de investimento e numa cultura que pouco valoriza sua história.  
O acervo do líder africano foi disponibilizado pelo Centro de Memória Nelson Mandela em parceria com o Instituto Cultural Google. Entre as fotos, diários e documentos digitalizados, estão um mandado de prisão, cartas escritas do cárcere para sua família e até seu cartão da igreja. A CH On-line já abordou iniciativas parecidas, quando do lançamento dos acervos digitais dos físicos Albert Einstein e Isaac Newton, por uma universidade de Jerusalém e pela Biblioteca Digital de Cambridge, respectivamente. 
A Biblioteca de Cambridge tem o projeto de digitalizar todo seu acervo de sete milhões de livros e documentos
A biblioteca britânica, aliás, tem o projeto de digitalizar todo o seu acervo de sete milhões de livros e documentos. Até agora, entre o material on-line é possível conferir, por exemplo, uma série de textos islâmicos, alguns com mais de mil anos, e um acervo do naturalista britânico Charles Dawrin, que conta com rascunhos da teoria da evolução e notas de sua viagem no Beagle. Quem também está interessada na área é o Google, que pretende usar o projeto de Mandela como modelo para resgatar a vida de outras personalidades do século 20. 

História digital do mundo

Há muitos outros exemplos desse recente ‘ganho de memória’ da internet. A vida do próprio Sir Isaac é alvo de outras iniciativas, como o Newton Project, da Universidade de Sussex, e um projeto da Biblioteca Nacional de Israel que aborda o lado místico do personagem. Interessado em teologia e alquimia, ele via na análise das escrituras sagradas uma ciência capaz, inclusive, de prever o fim do mundo (em 2060, anotem aí). 
Acervo Mandela
Ao ter seus arquivos pessoais disponibilizados na internet, Nelson Mandela se junta a personalidades e cientistas como Newton, Einstein e Darwin. (imagem: reprodução)
Nos Estados Unidos, diversos nomes importantes para a formação do país têm seus acervos disponíveis on-line, como Abraham Lincoln, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson – iniciativas mantidas pela Biblioteca do Congresso e pelas universidades de Yale e de Princeton, respectivamente. O ativista político Martin Luther King Jr também possui uma coleção digital, com fotos e rascunhos de seus mais importantes discursos
O Instituto Americano de Física preserva acervos com mais de 30 mil documentos de diversos cientistas e uma coleção de história oral com centenas de entrevistas, além de promover exposições on-line sobre importantes personagens da história da ciência, como Marie Curie e suas descobertas sobre a radioatividade e Werner Heisenberg, um dos fundadores da mecânica quântica. Na área de economia e política, o Avalon Project reúne documentos como o Código de Hamurabi e até o Tratado de Tordesilhas.

Amnésia brasileira

Apesar da importância que a pesquisa brasileira apresenta hoje, as iniciativas de resgate dessa história ainda são muito isoladas no país. Na opinião do jornalista e historiador da ciência Cássio Leite Vieira, editor de internacional da revista Ciência Hoje, elas esbarram na falta de uma cultura de preservação. “Temos pouca tradição no campo e, em geral, a história recebe pouco destaque na formação dos novos pesquisadores”, afirma.  
Especialista em filosofia e história da ciência, Antonio Augusto Videira, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), critica o atual modelo produtivista de construção do conhecimento. “É fundamental valorizar nossa história, pois só assim podemos avaliar as consequências de nossas decisões”, defende. “Por isso, são necessárias políticas públicas e ações pulverizadas, com a formação de redes, pois o material a ser preservado é maior que a capacidade das instituições dedicadas a esse trabalho.”
Coletânea de acervos
Diversas iniciativas internacionais têm ajudado a recuperar a memória de grandes cientistas. O Brasil conta com projetos isolados, mas que já o colocam em posição de destaque entre países sulamericanos e em desenvolvimento. (imagens: reprodução; montagem: Marcelo Garcia)
Uma dessas instituições é a Casa de Oswaldo Cruz (COC), da Fiocruz, que preserva – e agora disponibiliza na internet – acervos de pesquisadores da área da saúde, como Carlos Chagas e Adolpho Lutz. O historiador Paulo Elian, vice-diretor da entidade, defende a importância de combinar preservação com pesquisa histórica e divulgação científica e destaca a falta de políticas públicas no setor. Na própria Fiocruz, outro acervo interessante é o do sanitarista e político Sérgio Arouca, criado pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em saúde (Icict)
Outra instituição com tradição em preservar a história da ciência, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), guarda documentos de pesquisadores como o médico Olympio da Fonseca e o físico Bernhard Gross, mas pouco desse material está disponível on-line. Situação parecida com a da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que reúne documentos de personalidades que vão do médico e político Arthur Neiva a Tancredo Neves, porém disponibiliza pouco desse acervo na internet. A FGV mantém, ainda, projeto de preservação da história oral por meio de entrevistas com grandes personalidades sobre a sociedade brasileira.
É claro que existem problemas, mas estamos adiantados em relação aos demais países em desenvolvimento
Algumas universidades, como a Estadual de Campinas (Unicamp), também possuem acervo on-line de pesquisadores como o físico César Lattes e o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Documentos e imagens de cientistas como Nise da Silveira e José Reis estão disponíveis no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Outras iniciativas isoladas preservam pequenos acervos de figuras como José Bonifácio, Santos Dumont, Juscelino Kubitschek e Paulo Freire. Há ainda material sobre episódios importantes da história brasileira nos sites da Biblioteca Nacional, do Acervo Nacional e da Rede da Memória Virtual
Apesar de toda a limitação apontada pelos especialistas, há exemplos interessantes de ricos acervos já disponibilizados on-line no Brasil. Por isso, a arquivologista Maria da Conceição Castro, chefe do departamento de documentação da Casa de Oswaldo Cruz, destaca o pioneirismo do país. “Os sistemas de acervo informatizados são recentes e requerem um grande detalhamento e investimento. É claro que existem problemas, mas estamos bastante adiantados em relação aos países sulamericanos e em desenvolvimento.”

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line
http://cienciahoje.uol.com.br/blogues/bussola/2012/04/memoria-de-internet

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